segunda-feira, 4 de julho de 2016

O diagnóstico do meu país



Na semana passada postei aqui como dica de livro "O Brasil tem cura", de Rachel Sheherazade, e tenho postado alguns trechos de seu livro que acho inspirador. Hoje gostaria de compartilhar um trecho maior, que resume sua ideia central neste livro.

Mesmo para aqueles que talvez não goste desta autora, que esse trecho possa ser um ponto de partida para uma reflexão pessoal sobre a realidade de nossa nação.


"Incansável, o brasileiro vem tentando combater os erros mediante a multiplicação das virtudes. Como bom semeador, tem esperança de encontrar um solo fértil, onde as ideias, os valores e as boas ações inspirem, cresçam, prosperem e se multipliquem. Mas, numa analogia com a famosa parábola cristã do semeador, muitas sementes caem em solo arenoso, não formam raízes e acabam sucumbindo. Outras são sufocadas pelos espinhos, e não prosperam. Poucas são as sementes que brotam em solo bom, crescem e produzem até cem vezes mais. O cidadão de bem se pronuncia, mas parece que ninguém o escuta, é como se pregasse em vão, lançando palavras ao vento. Pouco a pouco, o bom brasileiro sucumbe ao desalento e, desanimado, perde as últimas esperanças de um Brasil melhor.

Abatido com os desmandos da República, já em 1914 o jurista baiano Rui Barbosa declamava, no Senado, o desânimo do homem honesto. Cem anos depois, seu discurso "Requerimento de Informações sobre o Caso do Satélite - II" traz um texto que segue extremamente atual: "De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se de honra, a ter vergonha de ser honesto".

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Somado aos problemas reais, cuja solução adiamos ad aeturnum, está o nosso complexo de vira-lata, termo cunhado pelo perspicaz dramaturgo Nelson Rodrigues e que designa nossa baixíssima autoestima. Ele afirmava que "o brasileiro é um Narciso às avessas, que cospe na própria imagem". E por que isso ocorre? Porque nossa autoimagem é extremamente negativa.

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... e nos convencemos de que nossa únicas vocações possíveis são o futebol e o carnaval, verdadeiros "orgulhos nacionais". Aliás, comumente confundimos a paixão pelo futebol com amor à pátria, por isso nosso patriotismo só aflora de quatro em quatro anos, quando a seleção verde e amarela entra em campo na Copa do Mundo; um patriotismo fugaz, volúvel, que esmorece e sucumbe quando a derrota bate à porta.

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A renovação do país depende primeiramente da renovação do pensamento, de uma guinada de valores que inspire um novo proceder. Só é possível transformar o Brasil redefinindo nossos modelos mentais, as formas pré-estabelecidas de ver e julgar a realidade para, consequentemente, passarmos a agir de modo diferente. Nenhuma cura é possível se não admitirmos o problema, se não mergulharmos num processo autêntico de mea culpa e de autoconhecimento."

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